segunda-feira, 5 de novembro de 2012


 B0   RASILEIRO POR OPÇÃO-XXI

                  José Augusto de Castro e Costa

A revolução acreana tornara-se finalmente vitoriosa com a rendição de Puerto Alonso, em 24 de janeiro de 1903.

Entretanto, dias depois os acreanos tomaram ciência de que, naquele mesmo período, partira de La Paz com destino a Puerto Rico o general Pando, presidente da Bolívia, e seu Ministro da Guerra, Ismael Montes, à frente de duas colunas do exército, para tentar a dominação do insurreto território que, afinal, deveria ser arrendado ao sindicato americano Bolyvian Syndicate, que exerceria ali poderes majestáticos.

Plácido tomara as providências de mandar parte de sua tropa para Puerto Rico,  para empreender operações de reconhecimento e sondagem do potencial inimigo, a fim de tentar o sítio da praça boliviana e deter o propósito da alta cúpula invasora.

 Já em Xapuri, enquanto preparava-se para  partir a fim de enfrentar as colunas do exército boliviano, no transcurso do mês de fevereiro de 1903, Plácido tomara ciência de que o governo brasileiro ordenara a ocupação do Acre Setentrional, ao norte do paralelo 10°20’, fato que já estaria em andamento, com a previsão de chegada, em breve, de um considerado Batalhão do Exército brasileiro.

Surpreendido com a notícia, o Caudilho entregara ao seu substituto o comando da tropa acreana que enfrentaria o novo ataque boliviano e retornara apressadamente a Porto Acre, a fim de aguardar e recepcionar a chegada do comandante oficial brasileiro, general Olímpio da Silveira, o que ocorrera a 3 de abril de 1903, em clima aparentemente amistoso,  não obstante a brevidade do encontro, o diálogo reticente  e as reservas  do visitante percebidos no  encontro.

Demorando-se menos de uma hora em enigmática visita, o militar despedira-se vagamente, para continuar viagem rio Acre acima, deixando com o chefe revolucionário acreano apenas alguns jornais e imprecisas suposições.

A 10 de abril, o tom da incerteza  anuviara-se um pouco mais quando Plácido de Castro recebera  um ofício do general Olimpio da Silveira, comunicando-lhe que, por determinação do Governo Federal, passara a ocupar militarmente e assumira o governo  do norte do território acreano, correspondente ao paralelo 10°20’.

O Caudilho, então, fingindo não compreender o quanto aquele ato ofendia a sua autoridade, contudo, considerando o dever de patriotismo não embaraçar as medidas do governo brasileiro e reivindicando os direitos conspurcados pelo governo boliviano, resolvera, por decreto, transferir para Xapurí, a sede do Governo do Estado Independente do Acre, assim como a Alfândega do Estado para “Capatará”, seringal que, cinco anos depois, adquirido por compra, em sociedade com seu irmão, viria a ser sua propriedade particular.

Xapurí  era, por essa época, uma próspera e pitoresca cidade, de casas de madeira cobertas de zinco, construídas em um barranco alto, em frente à foz do rio Xapurí, servindo de empório ao comércio desse rio e do Alto Acre.

De passagem pela “Empresa”, Plácido conferenciara com o general brasileiro, acerca da recente invasão boliviana, sob o comando do presidente Pando, todavia, sem a menor referência  ao objetivo da presença do exército brasileiro na região.

Encerrada a conversa Plácido retomara a viagem rio acima, para reencontrar a guarnição acreana Xapurí e seguir para Puerto Rico, que logo seria sitiado com as forças antes enviadas pelo comandante revolucionário.

Nos últimos dias de abril fora  travado  um intenso combate,  após  o qual, depois de quatro dias de batalha cerrada, as forças bolivianas começaram a dar sinal de debilitação.

Enquanto Plácido de Castro, em plena luta, considerava iminente o momento da rendição do poderoso inimigo, chegara, procedente de “Empresa”, o major brasileiro Gomes de Castro, trazendo-lhe um ofício do General Olímpio da Silveira, comunicando  que fora assinado, pelo Governo Federal, o documento denominado “modus vivendi”, entre o Brasil e a Bolívia.

Plácido acatara a providência contida no documento e no momento em que preparara-se para retransmiti-la aos bolivianos, fora surpreendido com a bandeira branca que o general-presidente José Manuel Pando mandara hastear, em face de também haver recebido a comunicação do “modus vivendi’, estabelecido  por instrumento datado de 21 de março de 1903.

Logo a seguir, Plácido tomara conhecimento, através do alferes Azevedo Costa, também do exército de ocupação da “Empresa”, de um ofício do general Olímpio da Silveira para o presidente Pando, propondo uma conferência direta com o boliviano, a realizar-se dentro de três dias, o que, na realidade,  jamais ocorrera.

Plácido de Castro resolvera, então, retornar ao Acre para falar ao general Olímpio, o que fizera cavalgando o mais rápido possível. No trajeto, defrontara-se com situações, de certa forma intrigantes.

Em princípio, no caminho de regresso, o Caudilho encontrara um oficial boliviano que, passando pelos acampamentos acreanos, dirigira-se a “Porto Rico”. Perguntado por Plácido com que licença um boliviano atravessara um caminho estratégico que acabara de ser aberto, um oficial acreano que o acompanhava respondera que o fazia com ordem do general Olimpio.

Ao chegar ao alto Acre, não encontrando o general Olimpio, Plácido retornara para providenciar  mantimentos para as tropas que encontravam-se  lutando no Tauamano, já sofrendo  com a fome, que  começara a ser sentida.

Com respeito, o Caudilho dera ordens ao ajudante-general do exército acreano que fizesse reunir os muares existentes na vizinhança e os enviasse com víveres para as tropas acreanas.

Um proprietário recusara-se a cumprir estas ordens, já influenciado  pelos oficiais do general Olímpio, que também estariam estimulando os soldados de Plácido à desobediência.

Plácido mandara prender o tal proprietário e recolhê-lo à guarda da força.  Os oficiais do Batalhão do Exército brasileiro, sob o comando do major Carneiro,ao tomar conhecimento do fato, foram libertar o preso, o qual aproveitara a confusão  para evadir-se.

Segundo Plácido de Castro registrara em seus apontamentos, alguns soldados acreanos, feridos pela indisciplina que lhes sugeriram os oficiais do Exército, passaram a dividir-se.

Uma parte deles continuara a acatar as ordens dos oficiais acreanos, enquanto outra parte passara para o acampamento do 27° Batalhão do Exército, cujo comandante oficiara ao general Olímpio, relatando os acontecimentos da maneira que lhe conviera.

Os moradores do Acre amavam sinceramente a terra que descobriram, povoaram e defenderam do domínio estrangeiro, com sacrifício de inúmeras vidas.

Meio esquecidos do distante torrão, do qual raríssimas notícias recebiam, cearenses, amazonenses, maranhenses, pernambucanos, gaúchos,independentemente de quaisquer comandos, todos sentiam-se na verdade acreanos de coração, empolgados que estavam pela luta ingente na terra grandiosa e bravia.

Por estranho que pareça, era e é fato real que a vida no Acre sempre absorvera e empolgara o espírito dos fortes, que ali demoram, apagando-lhes as saudades da terra distante e dando-lhes ânimo de permanência e fixação.

Porém, as perspectivas pareciam trazer ao Caudilho e a seus fiéis companheiros a sensação de que  estava  sendo lançada a semente da cizânia a qual, regada ao ópio da cobiça de poder e glória, e utilizando-se da inveja, vaidade e ignorância de algumas pessoas, não demoraria muito, iria brotar o fruto do sofisma corruptível que vemos habitar períodos nebulosos, desde os primórdios, da história brasileira.                                                                                                          

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


BRASILEIRO POR OPÇÃO-XX

           José Augusto de Castro e Costa

Entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1903 chovera incessantemente em Puerto Alonso e suas adjacências.

A noite do sétimo dia de combate chegara triste e úmida, povoada de pressentimentos, de inumeráveis enigmas e estranhas incertezas que rondavam  sobretudo os bolivianos. Bem espaçadamente fazia-se ouvir algum tiro brasileiro sacudindo o  cochilo boliviano e alertando as sentinelas quase imobilizadas, pelo vento  cortante vindo da mata.

Por volta de meia-noite, após uma estiada de pouquíssimas horas, a escuridão começara a ser clareada por frequentes relâmpagos e a expectativa sobressaltada por rimbombantes trovões, prenunciando o temporal que se esboçaria na ventania desenfreada.

Os acreanos passaram a lançar sobre o acampamento boliviano flechas  com estopas ensopadas de querosene que, iluminando o espaço, iam levar uma variedade de incêndios  à resistência inimiga.

Os tiros, espaçados antes da chuva, passaram a cruzar-se por todos os lados, fazendo-se troar o canhão, intermitentemente, madrugada adentro, para, quase ao alvorecer, cessar a tempestade instantaneamente, extinguindo-se também o tiroteio, sob o manto silencioso da neblina.

O ruído que apresentara-se  era o dos coveiros cavando valas, num bater de pás e picaretas, para enterrar seus companheiros mortos, ao amanhecer brumoso do dia 23 de janeiro de 1903.

Aos poucos uma luminosidade azulada ia translucidando o céu sobre Porto Acre,em busca de uma limpidez anilada, quando os brasileiros divisaram o branco de uma bandeira  subindo trêmula no mastro fixado no alto da Delegação Nacional da Bolívia, na margem oposta.

Plácido de Castro ordenara o cessar fogo e, ao lado dos companheiros, procurara entender o que lhes acenavam, do outro lado do rio, aos brados, os bolivianos. As palavras curtas e incisivas, não chegaram a ser entendias com clareza porém,  em vista da movimentação de dois estrangeiros numa canoa,  procurando atravessar  empunhando uma bandeira branca, o Caudilho deduzira tratar-se de uma rendição honrosa.

Era  engano, pois a autoridade boliviana viera aos brasileiros com a simulada intenção de pedir trégua para enterrarem  seus mortos, que somavam grande quantidade, segundo informações.

O comandante acreano, todavia, pressentira o pretexto e, ao suspeitar de algo além da justificativa, respondera ao boliviano que, no momento, estavam discutindo a sorte dos vivos. Mais tarde tratariam dos mortos, porque eles não ficariam insepultos, por muito tempo.

A suspeita do Caudilho, em verdade, teria fundamento, de vez que seu comando de guerra situara-se em um alvo bem acessível às balas inimigas, apesar de sua tropa manter-se oculta, cercada por um sem-número de bananeiras que serviam de tapumes.

Plácido, porém, percebera que o boliviano interlocutor, no momento em que ali estivera, aproveitara para examinar atentamente o local e pousara o olhar insistentemente  nas trincheiras acreanas. Em assim sendo, melhor seria dali retirar seu acampamento para outro local mais seguro, o que fizera sem pestanejar.

Reiniciado o tiroteio, de maneira tão intensa quanto no primeiro dia, os brasileiros observaram  que a zona mais varrida a bala fora justamente  a das bananeiras, onde estavam  entrincheirados antes. O pipocar ensurdecedor dos tiros prolongara-se por todo o dia, propagando-se pela noite adentro, sem interrupção.

As tropas de Plácido lançaram-se a conquistar o terreno por todos os flancos, chegando a cerca de cinquenta metros do inimigo, prestes a partir para o corpo a corpo e sair no tapa, quando a “peixeira” certamente  entraria em ação. E boliviano não é muito chegado a faca, da qual foge, como o diabo foge da cruz.

Ao amanhecer o dia 24 de janeiro de 1903, novamente os bolivianos hastearam a bandeira branca e pediram momentâneo descanso.

Trégua consentida, aproximara-se outra vez Dom Moysés Santivañez, desta vez, em nome do delegado do governo boliviano, para propor a capitulação, ao que Plácido respondeu  que somente aceitaria sob primordial condição: a retirada imediata total dos  bolivianos de toda a região acreana.

Instantes depois viera ao acampamento brasileiro Dom Lino Romero, delegado boliviano, que declarara aceitar, indiscutivelmente, qualquer condição proposta pelo Caudilho e oferecendo-se para assinar a Ata de Capitulação no local que os revolucionários indicassem, tendo sido escolhida a trincheira principal de Puerto Alonso.

Após transmitir as ordens de alerta aos seus comandados, Plácido, levando consigo apenas o corneteiro, acompanhou Dom Lino Romero de volta até às trincheiras bolivianas, onde fora apresentado aos oficiais superiores, quando destacara-se a espirituosa concepção do coronel Ruiz:”-Pero usted és mui joven”! O Caudilho, então, que há um mês completara 29 anos, respondera, com urbanidade, que “é a idade mais adequada às aventuras da guerra”.

O próprio Plácido lavrara a Ata de Capitulação em português, enquanto Dom Moysés Santivañez providenciara a respectiva versão para o espanhol e a passara ao delegado boliviano e demais  superiores hierárquicos, para as devidas assinaturas.

Mais tarde, formada toda a força boliviana ante ao exército acreano, procedera-se a entrega das armas, a começar pelos oficiais superiores, tendo Plácido de Castro salientado que “o ideal era a emancipação do Acre e que a cerimônia da entrega da espada do vencido, conquanto fosse um ato muito apetecido pelos grandes exércitos, não o confortara o coração, por ser um ato que aumentaria o infortúnio daqueles já infortunados pela derrota”.

Ao cair da noite de 24 de janeiro de 1903, o navio “Independência”, já descarregado das borrachas, depois  transformadas em balsas, amarradas umas às outras, como de costume,  tinha a bordo  todos os bolivianos prisioneiros, que seriam levados sob a escolta dos brasileiros até a cidade de Manaus.

A 26 de janeiro, Plácido de Castro, após ser aclamado governador do Acre pelo Dr. Baptista de Moraes, em nome de todos os oficiais combatentes da revolução e dos civis presentes, passara a organizar o governo com três ministérios, dos quais, dois – o da Guerra e o da Justiça – seriam acumulados pelo próprio governante e o da Fazenda, pelo coronel Rodrigo de Carvalho, que já possuía prática de assuntos aduaneiros.

 Através do primeiro decreto fora adotada a língua portuguesa, como o idioma oficial do Estado do Acre, e reconhecidas as propriedades e posses de terras ocupadas.

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


BRASILEIRO POR OPÇÃO-XIX

              José Augusto de Castro e Costa

 

Nos primeiros dias de janeiro de 1903 as forças revolucionárias  aguardavam ordens de Plácido de Castro, simultaneamente,  nos seringais  Caquetá, São Jerônimo e Bom Destino, prontas para o ataque a Puerto  Alonso.

 O que o Caudilho  preparara era um exército regularmente eficiente para a ação que iria desenvolver, tropa essa mobilizada pelos proprietários dos seringais. Ademais, os acreanos achavam-se bem mais mobilizados, tanto por terra quanto por água, em vista da cheia dos rios, que inundavam tudo,  graças às chuvas constantes da época.

O navio “Afuá”, que antes, sequestrado, houvera servido de abrigo aos bolivianos, após o segundo combate passara a pertencer novamente aos brasileiros, com o  sugestivo nome  de “Independência”.

No porto de “Caquetá” Plácido de Castro fizera alguns contatos com comandantes de navios e dera início ao sítio de “Porto Acre”, mandando abrir um varadouro contornando o terreno  onde se deveria acontecer o combate e ensejando saídas para outras direções.

No dia 13 de janeiro, Plácido oficializara ao Delegado boliviano, comunicando o início da batalha para o dia seguinte, às 10 horas da manhã, aproveitando para oferecer-lhe hospital para transfusão de sangue, a fim de nele também serem recolhidos e tratados os feridos, o que fora recusado, em linguagem considerada descortês.

Às 23 horas, Plácido suspendera  a ordem do ataque que estava marcado,  porém no dia seguinte, às 14 horas, distribuíra, pessoalmente as forças nas posições que deveriam ocupar, a fim de partirem para o combate.

A partir dessas providências, uma rajada de vibração patriótica sacudira o Acre inteiro, de brasileiros a bolivianos, invadidos pela angústia de ver chegar, o mais rápido possível, o momento real de jogarem o seu destino.

Plácido de Castro acampara um pouco acima de Porto Acre, com o batalhão “Independência”, quando apresentara-se  ao seu comando o engenheiro, seu conterrâneo, Gentil Norberto, oferecendo-se ao combate, disposto a cumprir todas as ordens que lhe desse, sendo aceito e colocado como um dos  ajudantes de ordem do Caudilho.

Segundo Plácido, às 9 horas do dia 15 de janeiro os acreanos romperam as hostilidades e às 14 horas já ocupavam posições em campo aberto, há cerca de 120 metros das trincheiras bolivianas.

De suas posições bem resguardadas nas eminências do terreno, os bolivianos responderam com firmeza o tiroteio, ”dirigindo o fogo para alinha de baixo e para a margem  direita”, porém, de súbito, Puerto Alonso recebera  um bombardeio do “Independência”, que acabara de estender linha de artilharia pela parte de cima do rio Acre.

Desencadeara-se a refrega com tal impulso, que rapidamente as tropas acreanas aproximaram-se cada vez mais do inimigo. Porém, uma repentina contra-ofensiva afastara  e recuara, forçosamente, os revolucionários, que se abrigaram na escuridão.

As perdas acreanas somaram, entre mortos e feridos, a cinquenta soldados, contudo, durante a noite, foram tamanhos os esforços e as providencias tomadas para o sepultamento dos mortos, acolhimento dos feridos e abastecimento às linhas, que, ao amanhecer do dia 16 de janeiro, todas as forças viram-se entrincheiradas e abastecidas  de víveres e água acondicionada em sacos impermeáveis, improvisados de cauchos de árvores, prontas para novo combate.

Fizera-se necessário que o navio “Independência”, carregado de borracha, descesse o rio para, em Manaus, trocar o carregamento por armamentos e munições, a fim de  manter  a resistência da revolução.  Plácido encarregara o coronel Antunes de Alencar de forçar a passagem do navio, quando recebera uma dupla surpresa: o comandante Alencar simulara estar, instantaneamente, acometido de grave crise hepática, desculpando-se e pedindo-lhe urgente dispensa do comando, e, logo a seguir, fora o Caudilho informado de que os bolivianos haviam colocado uma grossa  corrente, de uma margem a outra do rio, para impedir a passagem do gaiola.  

Plácido, então, dispusera outros comandos para as forças em terra e fora para bordo do “Independência”, a fim de comandar e compelir a necessária passagem, levando consigo uma força de artilharia de 50 homens, dispondo-a 25 em um bordo e 25 no outro, comandados por dois subalternos. Consumira-se não menos que três dias para romper a corrente que impedira a passagem do vapor, culminando com a perda, intercalada de um em um, de cerca de dez soldados voluntários, na operação submersa, debaixo da fuzilaria inimiga. A bordo do gaiola essas forças ficaram bem entrincheiradas, assim como o próprio Plácido e seu ajudante-de-ordens, capitão Antonio de Souza Coelho, que se posicionaram no meio da praça de armas, no momento da passagem.  O Caudilho desdobrara-se em múltiplas atividades, ajudando a arrumar, distribuindo a munição, ministrando advertências de ordem técnica e ainda pilotando o timão do barco.

Às seis horas da manhã do dia 19 de janeiro, Plácido de Castro ordenara que se suspendesse  âncora e avançasse o gaiola, envolto na densa bruma, num ambiente de franco nervosismo.

Súbito, silvara dentro da neblina da atmosfera acreana, o apito prolongado do “Independência”, desencadeando, simultaneamente, como que ensaiado, um violento indescritível tiroteio vindo de todos os quadrantes,  mas que não impedira a passagem, feita garbosamente pelos revolucionários brasileiros. Eram, sim, uns verdadeiros “cabras da peste”.

 Plácido de Castro, observara de seu comando e, em seus apontamentos registrara como sendo “belo o aspecto apresentado pelas linhas sitiantes e sitiadas, formando duas curvas concêntricas de fumo”.

Os vivas entusiastas irromperam por todas as linhas acreanas com o luminoso rufar da artilharia ao clarear da manhã. Os atiradores de bordo tanto atiravam como soltavam gritos de cego entusiasmo e contagiante comoção.

Passado o perigo e quando o “Independência” encontrara-se em local seguro, foram as forças acreanas reparar as avarias, quando de súbito, desabara uma chuva torrencial.

O aguaceiro, por ser muito forte, começara a encharcar as trincheiras e, por extensão, os próprios abrigos dos bolivianos, cujas paredes e tetos foram perfurados pelas balas brasileiras.

Começara a ser notado o desespero no acampamento boliviano, à medida que o dia avançava, refletindo na desorientação percebida pelos sussurros de vozes que entremeavam no ruído do trabalho nas trincheiras e nos sepultamentos dos mortos, indicando a proximidade dos combatentes.

Todavia, ainda que contínuo, os disparos da artilharia boliviana passaram a ser menos cerrados, em ritmo modificado, com intervalos estimados de cinco em cinco minutos, de modo tendente a descontínuo, porém, sempre brutal.

De vez em quando um aguaceiro violentamente caudaloso abatia-se sobre o campo de batalha.

Plácido selecionara uma turma para fazer o abastecimento d’água, conduzindo-a do rio nos sacos encauchados, servido pelos cauchos das árvores, que todo seringueiro usava, impermeáveis, onde, antes, comumente guardavam roupa, rede e mosquiteiro.

O Caudilho sempre expusera aos revolucionários os perigos da aventura, ocasião em que a morte poderia alcançá-los, porém, constantemente lembrara-lhes de que a vitória só dependeria deles. Todos comungaram com ele.

Ninguém recuara, ninguém caíra, ninguém temera. E, sob a fuzilaria boliviana os acreanos estiveram sempre prontos para partir em demanda do rio, para a morte talvez.

 Para ser brasileiro, por opção.

 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


BRASILEIRO POR OPÇÃO-XVIII

                 José Augusto de Castro e Costa

 

A emboscada boliviana na “Volta da Empresa” repercutira como um verdadeiro desastre, chegando a pronunciar-se o pânico no seringal “Liberdade”, que Plácido, após a batalha, encontrara inteiramente deserto, tendo o próprio dono da cabana, tomado de terror, fugido com a família.

Contudo, o Caudilho não desanimara, de vez que sabendo-se ser um guerreiro completo,  houvesse  ele lutado em campo mais amplo, com comandados um pouco mais experientes, teria alcançado melhor resultado.

A estreia, com efeito, trouxera-lhe aproveitável lição. Estudando as causas da sensível baixa, Plácido de Castro verificara que todos os mortos e feridos vestiam-se de roupas claras, o que favorecera ao inimigo alvo certeiro. Imediatamente ordenara  que  os soldados brasileiros providenciassem uniforme azul, o mais rápido possível, conseguindo-o  em poucos dias, graças à boa vontade de todos, sem exceção.   

Reorganizadas as forças, Plácido traçara o plano de ataque a “Nova Empresa” e, para lá, pôs-se em marcha, com um contingente importante, em face do acréscimo de mais de cem homens tirados do seringal do coronel  Antonio Antunes de Alencar.  

Precisamente no dia 2 de outubro estavam diante dos bolivianos novamente os acreanos, contando com a participação dos senhores Antunes de Alencar, Alexandrino Silva, que anos depois protagonizaria triste episódio, Gastão de Oliveira e outros.   Todos reconheceriam  a supremacia militar de Plácido de Castro, ocasião em que o aclamaram general, fato que recebera  o declínio do Caudilho, não apenas por modéstia, mas sobretudo para evitar mau precedente de promoções por pronunciamentos.

A 5 de outubro, conforme planejado, os acreanos atacaram a “Volta da Empresa”, simultaneamente, pelo lado de cima e pela retaguarda.

Segundo apontamentos do próprio Plácido, “estando marcado o combate para às 10:00 da manhã, no momento em que o inimigo deveria estar descansando da formatura, tal não acontecera, porque o coronel Alencar mandara, às 9:30 atirar em uma sentinela inimiga, o que  alterara bastante o resultado, pois não pudera o inimigo ser colhido de surpresa”.     

Com efeito, a batalha fora iniciada, com os acreanos abrindo fogo, com muita bravura e contagiante vigor, avançando sob um furacão de balas e desalojando os bolivianos de suas trincheiras, improvisadas no gaiola “Rio Afuá”, sequestrado pelo inimigo, que surpreendido pela vazante, ficara encalhado  no porto da “Volta da Empresa”, sob violenta pressão, mostrando haver enfraquecido o âmbito da defensiva.

A noite o combate fora suspenso , a fim de que os mortos fossem enterrados e os feridos conduzidos para o hospital de emergência, na “Volta da Empresa”.

Logo ao amanhecer os bolivianos perceberam que estavam completamente  cercados  por elementos hostis, tais como uma frente humana de brasileiros abrindo fogo incessante,  o paredão verde da floresta que os isolava de suas bases e, finalmente, o rio Acre minguando as precárias águas do estio, natural da época, que seria o caminho de Puerto Alonso, de onde deveriam chegar os recursos.  O rio seco, bloqueado pelos acreanos, completara a linha eficiente do  bloqueio, impedindo o inimigo até de buscar água para beber.     

Plácido de Castro sempre procurava demonstrar o traço humano na guerra que empreendia, razão pela qual oferecera  garantias para rendição,  ao Coronel Rosendo Rojas, Comandante das Forças Bolivianas em Volta da Empresa, estabelecendo bases condicionais para a suspensão das hostilidades, entre as quais, bloqueio do abastecimento de víveres e de água  para os sitiados.

Apesar do caráter humanitário, o Caudilho era inflexivelmente severo, a ver-se pela atitude para a execução de Antonio Português, o guia da coluna Coronel Rojas, preso por oficiais acreanos, para quem ordenara o imediato fuzilamento, após o qual, alguém vira rolar duas lágrimas dos olhos do gaúcho.

O combate da “Volta da Empresa” tivera prosseguimento por quase onze dias, quando, depois de algumas  trocas de correspondências,  o armistício seria aceito, contido na  resposta afirmativa do Coronel Rozendo Rojas. Plácido, então, mandara elaborar uma Ata, redigida em português e espanhol, na qual constara garantia de vida para o Comandante e seus oficiais e soldados bolivianos, liberdade a todos os prisioneiros, licença aos indígenas carregadores e soldados casados para regressassem  à Bolívia, via “Madre de Dios”, sob o comando de seus superiores, enquanto o Coronel Rosendo  Rojas e demais aprisionados  seguiriam para seu país, com baldeação por Manaus.

Plácido de Castro começara a provar ser um brasileiro inclinado à lealdade, à honra  e ao cavalheirismo, de espírito elevado no momento de receber o adversário vencido. Levando consigo cerca de 60 homens, descera  o rio levando os bolivianos presos  até o Antimarí, de onde prosseguiram para Manaus, com destino à Bolívia.

Ao regressar, por outro caminho, um varadouro para “Bom Destino”, Plácido tomou conhecimento da derrota da pequena força acreana no igarapé “Baía”, onde  um pequeno número de brasileiros fora vítima de fuzilamento e outros queimados dentro do barracão.

Atravessando a floresta densa, o Caudilho atingira, a 17 de novembro, com um total de 400 homens, a barraca Bela Vista, em Santa Rosa, no rio Abunã, onde, na manhã seguinte, seus pelotões delinearam o ataque, com imenso tiroteio contra as linhas bolivianas, protegidas por trincheiras de borracha, em combate que durara cerca de cinco horas, terminando com a dispersão das tropas inimigas, evadindo-se pelo emaranhado da selva. Os brasileiros concluíram o ataque, que se configurara no terceiro combate, ateando um vasto incêndio às casas e trincheiras bolivianas.

De Santa Rosa Plácido invadira a Bolívia, tomando “Palestina”, posto boliviano abastecido pelo quartel-general de Riberalta para, no princípio de dezembro  dirigir sua tropa a  Xapurí, de onde partiria para  o quarto combate, no lugarejo denominado Costa Rica, guarnecido por 100 bolivianos.

A 25 de outubro, Dom Lino Romero, Delegado boliviano em Puerto Alonso, sentindo bem claro a situação dos acontecimentos desencadeados no Acre, escrevera ao presidente da Bolívia, fazendo relato da revolução acreana, em que insinuara que seu país não deveria sacrificar-se por causa estéril, como a encontrada naquela região tão adversa à sua natureza e que, por natureza, não lhe pertencia. Em certo trecho, escrevera textualmente  Dom Romero, que “ El Acre nominalmente ES de Bolivia, pero materialmente ES Del Brazil, todo contribuye à ello; inmensas distancias y obstáculo que ló separan Del resto Del paiz, La población extraña que ló Puebla, La falta de vias de comunicación dentro Del mismo território y finalmente La imposible adaptación de nuestra raza a este clima mortífero............Se AL Brazil apetece El Acre, que ló posea em buena hora.........Tengo a bien comunicar a ud que el Sr. Placido de Castro y demás jefes enemigos se han portado com nuestros prisioneros com toda nobleza y cavallerosidad” .

Na missiva ao Presidente da Bolívia, Dom Lino Romero argumentara que povos poderosos não puderam manter sob seu domínio seres de outra raça e outros costumes, e os bolivianos, ainda em estágio débil e embrionário, não poderiam contrariar uma lei histórica comprovada a cada passo. Para a autoridade boliviana o Acre nunca poderia ser da Bolívia.

Porém  esmorecer, em descumprimento de ordens, jamais! Os bolivianos, em Puerto Alonso, procuraram restituir o ânimo para enfrentar toda a adversidade que o destino lhe houvera traçado. Cavaram trincheiras, derrubaram árvores, instalaram cercas de arame farpado, intensificaram o patrulhamento, verificaram o estado  e armaram em prontidão o canhão tomado aos “Poetas” dois anos atrás. Enfim, mantiveram-se em alerta.

No princípio de janeiro de 1903, o Acre, ao norte da chamada linha Cunha Gomes, estava livre de bolivianos que, batidos por toda parte recuaram a território incontestável, concentrando-se em Puerto Alonso, onde o Coronel Lino Romero ainda dispunha de certa quantidade de soldados para a defesa de sua autoridade combatida, desacatada  e periclitante, a qual, ele próprio, mantinha sem entusiasmo, por simples lealdade ao governo de seu país, conforme definira com a expressão de que “El Acre nominalmente ES da Bolivia, pero materialmente, ES Del Brazil”.

Dom Lino Romero fixara-se em Puerto Alonso, com sua autoridade limitada e encurralada, entre a floresta e o rio, com um quartel-general dos revolucionários ali próximo, em Caquetá, e entre os flancos  as tropas de Plácido de Castro, ditador em toda a região, por aclamação popular. Sentira-se prisioneiro em sua própria cidadela, Puerto Alonso.

De salientar que Plácido de Castro, com sua saúde precária, em vista dos ataques do implacável impaludismo, caracterizado por longas e graves acessos de febre, que ocasionam frequentemente o estado comatoso, o qual precede a morte, exercera  uma quase onipresença nos lugarejos do Acre. Quando não podia caminhar ou montar, era carregado numa rede para, no ponto necessariamente pré-estabelecido, erguer-se e, não só comandar, mas também proceder a artilharia. Já comandara efetivamente quatro combates atemorizantes.

A providencia de estar presente onde fizera-se necessário, sempre desmentira  os boatos espalhados, com relação à morte do Caudilho e consequente fracasso do movimento.

Contudo, a superioridade que os acreanos levavam sobre os bolivianos era incontestável e enlevavam a alma dos revolucionários. Plácido vira, como estímulo, o aumento considerável de seu exército, regularmente eficiente para as próximas ações. 

                                                                                                        

BRASILEIRO POR OPCAO-XVII

                   José Augusto  de Castro e Costa

 

Em Xapuri as autoridades bolivianas não eram muitas e estavam alojadas em três casas: na Intendencia, onde residia o próprio Intendente, Dom Juan de Dios Bulientes, na de Alfredo Pires e na de Augusto Nunes, português, colaborador dos bolivianos.

Ao saltar em terra, Plácido de Castro dividira a pequena força de 33 homens em três grupos, para atacar simultaneamente as três casas, reservando para ele a do centro, onde funcionara  a Intendência.

Penetrando  onde achara-se o Intendente, de lá, em silêncio,  retiraram algumas  carabinas e  dois cunhetes de balas, para em seguida chamar  o comandante em alto brado, o qual, ainda sonolento respondera: “Es temprano para la fiesta”, ao que Plácido, elevando o tom,  retorquiu: “Não festa, Sr. Intendente, é revolução”.

Levantaram-se, sobressaltados , o Intendente e os  seus comandados. Deixando-os sob guarda, Plácido dirigira-se  à casa de Augusto Nunes, onde Moreira nada houvera feito.  Ali todos foram presos, enquanto  o coronel Galdino já viera da casa  de Alfredo Pires, escoltando vários bolivianos, caracterizando-se assim, o inicio da revolução acreana.

Neste mesmo dia 6 de agosto continuaram a reunir gente, verificando o Caudilho que alguns proprietários prometiam tudo, mas em verdade mostravam-se receosos.  O coronel Jose Galdino era quem agia com mais desassombro, sem parcimônia.

Plácido convocara uma reunião para a madrugada seguinte, a qual se realizara conforme esperado. Nela expusera as razões que determinaram  a   revolução e ouvira a eloquência  das palavras dos senhores  Dr. Albino dos Santos Pereira, Gastão de Oliveira e Manfredo  Álvares Affonso.

Em seguida o  Caudilho convidara os presentes a  proclamar  a independência do Acre, com o nome de Estado Independente do Acre, e sugerira  o ato simbólico de ser  hasteada a bandeira ao som da Marcha Batida, pois já havia um corneteiro entre eles, fato que todos reverenciaram, tirando o chapéu respeitosamente.

Foi lavrada uma Ata, da qual Plácido de Castro mandara extrair várias cópias, para serem distribuídas rio abaixo, imediatamente, enviando uma ao Delegado boliviano, em Puerto Alonso, a  fim de  que, se alguém fraquejasse, não pudesse recuar, visto de haver comprometido  com  a  assinatura no documento.

Os prisioneiros bolivianos foram expulsos do território  via Iaco, enquanto Plácido descia o rio Acre a  frente de 64 homens, ficando o coronel Galdino no comando da guarnição de  Xapurí, que se compusera de cerca de 150 homens, e com  ordem de recrutar quantos fossem necessário.

Ao embarcar com seu grupo para descer o rio, Plácido tomara conhecimento de que um judeu-francês,  estabelecido na região,  estaria fazendo reuniões ocultas, com o fim de sufocar  a revolução, talvez não acreditando que o movimento triunfasse.

Ato continuo, Plácido mandara prender esse estrangeiro, levando-o em sua companhia, na sua própria canoa.

No terceiro dia de viagem, o Caudilho  recebera um recado que lhe enviara o coronel João do Monte, comunicando que o batalhão boliviano já haveria chegado em “Capatará”, com grande numero de efetivo.

Continuando  a  marcha, chegaram ao seringal “Itu”, de onde Plácido mandara reconhecimentos a “Capatará”, por água e por terra, recebendo, em seguida,  a  informação de que a noticia era falsa, pois ainda não se soubera nada sobre o batalhão boliviano ali esperado. Era final de agosto quando a tropa revolucionária  chegara a “Capatará”, pela  manhã, partindo em seguida  para  “Benfica”, onde o Caudilho soubera que, com sua demora, em vista de forte impaludismo, muitos companheiros haviam fugido, dando crédito ao boato sobre sua morte, enquanto outros seriam  presos pelos bolivianos,  que já  possuiriam conhecimento da revolução.

Entre os dias 1 e 7 de setembro, no seringal “Liberdade”, Plácido de Castro ocupara-se em convocar os vizinhos e em reunir muita gente. Segundo ele, muitos foram  agarrados, já em fuga, pelo pavor que lhes haveriam causado  a  prisão e  a fuga de seus chefes.

Continuando a marcha revolucionária, Plácido chegara a “Caquetá”, ali encontrando seu conterrâneo Gentil Norberto, o qual  viera  informar-lhe que trouxera de Manaus 120 Winchesters, 100 encapados de farinha e 12 cunhetes  de balas, de vez que fora encarregado pelo governo do Amazonas de fazer guerra no Acre, demonstrando, ao Caudilho, não possuir a  mínima noção sobre coisas militares, muito menos bélicas.

Logo a  seguir apresenta-se o Sr. Rodrigo  de Carvalho, que se dissera com a mesma incumbência do governo amazonense. Notara-se ser público o  desentendimento dos dois, passando os dias em implicância mútua, em discussões estéreis  e em troca de insultos e inculpabilidades.

Prosseguindo viagem Plácido passara pelos seringais  “Bagaço”e “Liberdade”, preparando-se para atingir a Empresa, quando, ao romper  do dia 18 de setembro, as 5:30 horas,  foram surpreendidos,em cheio, no campo da “Volta da Empresa”,  pela primeira descarga de balas, a céu aberto. A tropa acreana, estupefata, reagira como pudera, em tiroteio intenso.

Extinta a  munição, a  derrota pronunciara-se pelos revolucionários,   a  despeito  do esforço despreendido  para evitar o desastre.

A  estreia  dos  acreanos  em  campo de batalha contabilizara  baixa de 22 mortos, dez feridos e 6  evadidos.

O inimigo, não obstante achar-se munido de fuzil, também tivera suas arranhaduras, constante de 10 mortos, inclusive um capitão, e 8 feridos. Mesmo em numero superior, os bolivianos  não efetuaram  perseguição  aos  brasileiros.

 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012


terça-feira, 3 de julho de 2012


BRASILEIRO POR OPÇÃO- IX

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA


Don José Paravicini após a abordagem ao vapor "Franklin", ainda prosseguiu subindo o rio Acre por mais uns três dias, chegando um pouco acima da volta da Empresa, onde travara conhecimento com Neutel Maia e Raimundo Sargento, precursores da notável jornada migratória brasileira, arrojados ao trabalho, com vistas a prosperar seus seringais.

A todos, a autoridade boliviana cientificara de seus propósitos e projetos, dando ênfase, sobremaneira, ao domínio da Bolívia na região acreana.

Razoavelmente satisfeito com a investida, D. Paravicini retorna à Puerto Alonso, para avaliar o andamento dos afazeres recomendados e concretizar a cobrança do imposto de exportação dos produtos retirados daquela área considerada boliviana, equivocamente por autoridades brasileiras.

É bom lembrar que os bolivianos não haviam esquecido de que o "Rio Tapajós" havia sido fretado da "Amazon Steam Navigation" ao valor de quarenta e cinco contos de réis, pelo período de um mês, acrescido de um conto e quinhentos réis por dia que excedesse ao prazo. O vapor "Rio Tapajós", conduzindo a comitiva de D. José Paravicini, havia zarpado de Belém na madrugada de 14 de dezembro de 1898 e o vencimento do frete estaria para ocorrer dentro de poucos dias. Do dia 14 de janeiro para adiante, o frete do "Rio Tapajós" correria por conta do acréscimo, avaliado em um conto e quinhentos réis, fato que poderia ser sanado com o dinheiro da exportação dos produtos acreanos.

Os bolivianos agradaram-se da aparência de Puerto Alonso, transformada em tão pouco tempo, destacando-se o adiantado estágio das primeiras construções de pequenas barracas na clareria aberta na floresta, deixando à vista uma extensa planície.

Instalado o posto alfandegário em Puerto Alonso, pode-se dizer que também instalados estavam os ânimos acirrados de brasileiros e bolivianos na área.

Desencalhado alguns dias depois, o vapor "Franklin" transpôs o porto de Puerto Alonso sem dar a menor atenção aos sinais do pessoal da alfândega, cometendo uma tremenda desobediência às formalidades e exigências das autoridades bolivianas, o que foi considerado um estupendo desacato e revoltante hostilidade.

Decididos a não se submeterem às novas ordens, o Superintendente da Vila Antimarí e o Juiz de Direito da Comarca manifestaram-se por escrito ao Comandante do "Rio Tapajós", solicitando melhores esclarecimentos sobre a exagerada e acintosa fiscalização dos que se diziam representantes do Governo da Bolivia. Intimavam a que o Comandante do "Rio Tapajós" levasse imediatamente ao conhecimento da comissão boliviana que as autoridades do Amazonas estavam firmemente resolvidas a fazer cessar o abuso que os bolivianos praticavam, e os certificassem de que deveriam, dentro de 24 horas, lhes fornecer provas que justificassem plenamente aquela norma de conduta, responsabilisando ao comandante do navio e à respectiva empresa, por tudo quanto pudesse ocorrer.

Como não obtiveram respostas conclusivas, porém dúbias, inconsequentes e preocupantes, o Superintendente e o Juiz tomaram por bem interpelar pessoalmente a Don José Paravicini, que os informou, em alto e bom tom, que não lhes devia satisfações, de vez que era um Plenipotenciário e só privava entendimentos de potência a potência.

Os brasileiros, por medida de prudência, retiraram-se de Puerto Alonso com destino ao Antimarí, donde o Superintendente designou, de imediato, o Secretário José de Carvalho para, em Manaus, expor, os que julgava serem sérios e preocupantes acontecimentos, ao Governador do Amazonas, solicitando providências.

A autoridade boliviana continuaria baseada em Puerto Alonso, representando seu país e tentando imprimir nova ordem administrativa, sob a inspiração das leis de sua nação.

Como reflete o binômio organização e método, gerador de um natural efeito administrativo, o exercício de D. Paravicini agradara a uns (principalmente bolivianos), mas desagradara grandemente a outros.

Observe-se que o desempenho de Don José Paravicini na região acreana prendia-se sobremaneira ao objetivo de cumprimento do dever em seu torrão patriótico. Tudo que se fizera seria para o bem da Bolívia. Por isso ele se dedicara, de corpo e alma, à construção de uma estrutura organizacional composta de um Governo a oferecer serviços administrativos, judiciários e econômicos, sem descuidar-se da proteção religiosa.

A conduta de D. Paravicini, talvez por exagerar no passionalismo patriótico, temperado com o propósito de firmar e ampliar o domínio da Bolívia com rígida severidade, revelando visível arrogância em ambiente brasileiro, começara a propagar-se de modo negativo em Manaus, repercutindo por todo o Brasil, veiculado pela imprensa amazonense e carioca.


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BRASILEIRO POR OPÇÃO-VIII

José Augusto de Castro e Costa

 

     No início de uma tarde o “Rio Tapajós” atinge sem novidade,  a confluência do rio Purus com o rio Acre  onde, segundo  a tripulação, distinguia-se  o barracão do conhecido cearense “Barão da Boca do Acre”, que marcava suas mercadorias com três  eles – L.L.L. – que significavam seu nome:  Lixandre  Liveira  Lima. Evidentemente  os bolivianos não  intuíram-se  da  esdrúxula  curiosidade.

     Prossegue o vapor  rio acima, impelido pela hélice,  já de onde os bolivianos  começariam a vislumbrar, não obstante o anoitecer, a imensa  planura de terra firme coberta de floresta, “habitat” natural  e abundante da  “Hevea Brasiliensis”, de látex farto e de boa qualidade, constituindo a grande riqueza da região.

     A noite, sob  um céu alegremente estrelado,  o “Rio Tapajós” chega à Vila do Antimarí, sede da Superintendência do Estado do Amazonas.

     No  navio as horas passavam preenchidas por certa celeuma que contrastava com a quietude  entorpecida da vila.  Paralelamente  ao aprovisionamento da expedição boliviana, não foram esquecidos instrumentos musicais, como Charango (um tipo de bandolim), a Zaponha, a  Quena e a Tarka (espécie de flauta) , a Huancara e a Caixa (percussão).  Mesmo sem a participação feminina, alguns sempre  ensejavam passos  da Cueca ou  Lhamero, ao som da melodia da Takirári, uma das mais populares canções bolivianas. Tudo isso regado  à famosa Paceña, que já existia desde 1877 e à  queimante Mocochinchi, uma cachaça que fazia cuspir fogo.

     Dom José Paravicini resolve então balançar a vila, precisamente na  véspera da  virada do ano de 1898, quando alguns, na calada da noite, ainda jogavam conversa  fora, regada a umas lapadas de Cocal  para uns,  Quinado ou Gin com Vermouth  ou a  cerveja  amazonense XPTO,  para outros.

     Tudo  ia bem mas  eis que estronda de repente, um pavoroso  e aterrorizante  estampido, de  fazer  tremer  nas árvores as mais  encravadas  arborícolas (preguiça),  elucidando  de súbito como seria  o Apocalipse. Houve até quem se  lançasse do assento, tal  a  intensidade  da grave detonação do apito do gaiola.

     Passado o susto, embora não ainda refeitos do  terrível sobressalto, os moradores da Vila Antimarí  certificaram-se que  aquela viagem do “Rio Tapajós” não se tratava de finalidade comercial, mas de objetivo  de estabelecer Posto Aduaneiro  nos rios Acre, Purús  e Iaco, inclusive tomar posse de um patrimônio, tudo isso com o descuidado  consentimento  do  Governo  brasileiro.

     Atordoadas, confusas, entontecidas com o alvoroço do inesperado acontecimento, as pessoas acorreram, instintivamente, ao  barranco, a fim de ver e entender a causa de tão estranho  escarcéu.

     Misturado com os demais habitantes, também atônito e surpreso, o advogado José de Carvalho, ao saber das primeiras informações de que  o vapor transportava  uma expedição boliviana, com a finalidade de instalar postos aduaneiros, estranhou não haver  recebido comunicação das autoridades brasileiras de Manaus.

     As palavras pronunciadas  em idioma desconhecido agravavam  a perplexidade. Quem fora despertado, não compreendia o pesadelo. Quem  tomara uns tragos a mais,  cismou  que talvez  bebera sem  moderação.

     A verdade é que a compreensão dos fatos  foi  a única ausente, na noite de 30 de dezembro  de 1898, na Vila do Antimarí.  Ainda mais pelo fato de o “Rio Tapajós” levar  pouco  tempo atracado, adicionado a falta de esclarecimentos  acerca da numerosa comitiva estrangeira que transportara.

     Como não havia nenhuma embarcação ancorada no porto,  Don Paravicini, ansioso  para por em prática seu propósito, mandou desatracar a embarcação e ordenou que o “Rio Tapajós” prosseguisse rio Acre acima. Acabara de tomar ciência de que  umas duas dezenas de navios haviam subido naquela direção e todos, evidentemente, deveriam retornar  superlotados de  borracha, o que proporcionaria uma excelente arrecadação para o recém fisco  boliviano.

     Enquanto  não fora estabelecido a base para a instalação do Posto alfandegário, o devido expediente neste sentido seria  efetivado  no próprio navio.

     Em 3 de janeiro de 1899 D. José Paravicini funda, literalmente, a localidade denominada “Puerto Alonso”, em homenagem ao Presidente da Bolívia,  Don  Severo Fernandes Alonso, hasteando pela vez primeira o pavilhão boliviano.

     O espírito de audácia do conquistador boliviano refletiu-se de imediato, numa região de espessa  floresta, praticamente impenetrável  em  muitos pontos, rica em árvores colossais, onde destacavam-se as nativas seringueiras, castanheiras, cumarus, louros e muitas e muitas outras, símbolos  de economia que ajudaria a fixação do homem à terra.

     Tão logo aprovou  a localização para sua base, D. Paravicini dividiu sua expedição em grupos destinados aos afazeres – de desmatamento, de construção e de burocracia.  A prioridade para a efetivação dos trabalhos continuaria sendo a arrecadação de impostos. Para tal, o “Rio Tapajós” seria utilizado como posto alfandegário ambulante.

     Enquanto as devidas providências eram  tomadas em terra, inclusive com a participação de alguns habitantes da redondeza, o vapor deslocara-se  rio acima e logo ao completar uma curva,  é avistado, encalhado num baixio, o vapor “Franklin”, no qual achavam-se duas autoridades amazonenses – O Juiz de Direito da Comarca e o Superintendentes da Vila  Antimarí, Coronel Francisco  Monteiro de Souza Júnior.

     As autoridades brasileiras estranharam  o pavilhão boliviano tremulando no mastro de um navio brasileiro. Maior impacto tiveram quando  do “Rio Tapajós”, ao aproximar-se,  apresentaram-se um grupo de estrangeiros, ocasião em que D. Paravicini, em aparente autoritarismo, dera conhecimento   a todos, do propósito que o levara àquele lugar, informando-os, sobretudo   do encerramento  das atividades  atribuídas aos brasileiros naquela região, passando todos os encargos  para a responsabilidade da Bolívia.

     Sempre tocado  pelo sentimento  de patriotismo, D.Paravicini  julgava estar na Bolívia, motivo pelo qual  experimentava a alegria de navegar e pisar em território pátrio, após inúmeras  contrariedades  vividas  na empreitada a que propusera-se.

     Em aditamento  ao objetivo da ocupação,  a autoridade boliviana cientificara   ao Comandante do “Franklin”,  Tenente –honorário  Joaquim  Sarmanho, acerca  da instalação do posto alfandegário, entregando-o a notificação para o devido pagamento , tão logo descesse o rio, com destino a Manaus.