segunda-feira, 11 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – VI
                     José Augusto de Castro e Costa

     A história do Acre é, na verdade, uma das mais belas, sobretudo  por  revestir-se  de questões surpreendentemente  belicosas,  provenientes de  enredos  e solucionadas  pela participação ativa de irmãos brasileiros, inspirados  por suas  aguerridas  presenças de espírito, ressaltando-se, não apenas, o Barão de Rio Branco, Embaixador Assis Brasil e José Plácido de Castro, mas inúmeros outros. De salientar, sobremaneira, o empenho contundente, inteligente e (aqui cabe dizer) “salvador da pátria”, exercido pelo brasileiro Alexandre de Gusmão, conhecedor profundo da geografia do Brasil e seus problemas, que, com  sagaz  perspicácia , inseriu o “uti  possedetis” no Tratado de Madri,  e no  Tratado de Limites, de 1750. Secretário do Conselho Ultramarinho, Alexandre de Gusmão exercia,  ainda , atividades de  conselheiro íntimo do rei D.João V, o que o credenciava a negociar pactos relativos  a bases  de limites territoriais e elementos soberanos de Suas Majestades  da Espanha e de Portugal,  na metade do século XVIII.
     Entretanto, cento e cinquenta anos após, essas questões de estruturação histórica-política do Tratado de Madri, adormeciam ignotas, na mente sul-americana de brasileiros e  bolivianos,  como se estivessem  ocultadas pela espessura  da  floresta  amazônica.
     A contenda diplomática, porém, começa a buscar soluções para a questão de limites dos dois países, o que incluiria o Peru. O Tratado de Ayacucho, porém, trazia  uma variedade de nomenclatura  geométrica, o  que sugeriria muitas interpretações diversificadas.    
     Enquanto isso, os bolivianos iniciando a jornada  de ocupação do Acre, atingem a bacia do rio Madeira, sob o comando do General  Pando, que viria a ser Presidente da Bolívia, anos depois.
     As autoridades bolivianas, então, autorizam a demarcação de limites, na parte compreendida  entre o  Madeira  e o Javarí, salientando que  “esta nascente está, para todos os efeitos, na demarcação entre Brasil e Bolivia”. Acontece, porém, que em outra demarcação realizada  pela Comissão de Limites do Ministério do Exterior, a  latitude está completamente diferenciada.
     Desenvolve-se daí uma confusão generalizada, agravada com o protesto do Peru que julgava-se lesado pela Bolivia, contra a perda de território  seu.
     A essa altura os Estados Unidos e a Inglaterra  estavam interessadíssimos em abrir o rio Amazonas à navegação internacional, sob a influência de uma propaganda que sugeria a abertura do Rei dos Rios, com diziam em seus jornais:  Kings of Rivers.
     Enquanto grupos de bolivianos encarregavam-se de ocupar os rios Juruá, Iaco e Acre, outros, influenciados  e sugestionados pelo imperialismo econômico, dedicavam-se à instituição do organismo internacional que, indubitavelmente não só iria gerir toda a economia regional, como colonizaria parte da soberania do Brasil,       apossando-se, “in totum”,de seu principal produto de exportação. Trata-se do “Bolivian Syndicate”, o qual projetava controlar todas as atividades relacionadas ao produto, bem como sua exportação, com o poder econômico e forças terrestres e navais. Constava do contrato com o “Bolivian Syndicate” o equipamento e manutenção de força naval armada, para a defesa dos rios, conservação da ordem interna, com o poder de policia.
     Havia sido nomeado pelo governo boliviano, para exercer o cargo de Delegado Nacional do Governo da Bolivia, Don Juan Franisco Velarde, o mesmo que há poucos anos proferira conferência na Sociedade Geográfica, na presença de D.Pedro II, insinuando a imediata ocupação na região amazônica. Como autoridade boliviana, D. Velarde desloca-se para a região do Alto Acre, a fim de, sobretudo, instalar um posto aduaneiro, para evitar os contrabandos por ali passados. Chegara, então, a Manaus, com o intuito de apresentar seus planos ao governador do Amazonas, na ocasião, o senhor Ramalho Junior, a quem pedira apoio para o plano exposto. Felizmente o governador Ramalho Junior negara assentimento à fundação do posto alfandegário no Acre, pelo fato de não haver recebido, do Governo do Brasil, nenhuma instrução nesse sentido. Em ação concomitante chegara à vila de Xapurí, por via terrestre, uma  expedição militar de 30 praças, destinada a dar cobertura ao que propusera-se D. Juan Velarde, informando  que a Bolivia havia deliberado fundar uma Delegação Nacional naquele rio.
     No Amazonas, a delegação de D. Velarde  quedara-se, encantada com a região que, julgavam  semelhante a sua, não muito distante dali. Durante a viagem de Belém para Manaus, notavam os bolivianos que, em certas zonas, a perspectiva mudava frequentemente para quem acompanhava com a vista as margens e o desenvolvimento das árvores. De vez em quando distinguiam árvores com manchas brancas no tronco, de um colorido verde claro na folhagem, e que logo eram apontadas como exemplares da famosa  seringueira.
     Junto das seringueiras era notado um jirau composto de três ou quatro forquilhas e de outras travessas, de cima das quais o seringueiro  poderia fazer mais alto as incisões e lá espetar a sua tigelinha para colher a preciosa seiva. A expedição navegava, ainda, pelo Amazonas.
     Em Manaus, o desenvolvimento era notório e seus visitantes já lhe previam um futuro grandioso por sua situação privilegiada. Era de saltar à vista o cosmopolitismo da cidade, por seu progresso vertiginoso, por sua arquitetura, por suas obras municipais, por possuir um monopólio comercial e pelo futuro que lhe era reservado.
     Toda essa estrutura de benfeitorias, atrativos arquitetônicos, artísticos , culturais, entretenimentos e movimentações sociais, estaria ameaçada a escassear, caso o “Bolivian Syndicate” conseguisse fechar as atividades das Alfândegas de Manaus e de Belém, levando a efeito apenas  o desempenho do posto aduaneiro  no rio Acre, como aspirava.
     Nem por isso deixou-se de ver o declínio do vertiginoso e aprazível auge da exportação  da borracha, gerador impulsionante da economia brasileira, no final do século XIX.
     Mas, de início, tanto a missão de D. Juan Velarde, em  Manaus, quanto a da expedição militar boliviana, em Xapurí, tornaram-se infrutíferas, em decorrência da posição do governador do Amazonas, Ramalho Júnior e respectivamente, da autoridade brasileira sediada no alto rio Acre.
     Ressalte-se que, por absoluta  ausência de rápidas comunicações, estabelecera-se um embuste de suposições e completo desconhecimento dos fatos. Nem o ministério boliviano no Rio de Janeiro sabia do ocorrido com a  Expedição  sob o comando de D. Juan Velarde chegada a Manaus, nem esta, por sua vez, nada sabia do que passava-se em Xapurí.
     Estava investido no cargo de Ministro Plenipotenciário da Bolívia, Don José Paravicini, conhecido como Diplomata frio, calculista e ambicioso.
     Quando soube do fracasso da Expedição em Manaus, respondeu que D. Juan Velarde  errara, evidentemente, por excesso de cortesia, pois não deveria  aquela autoridade  dirigir-se ao governador do Amazonas, por encontrar-se, como achava, em território boliviano, e precisaria exercer sua jurisdição como emanada da soberania da Bolívia. Continuando, diz D. Paravicini em seu expediente que “se houvesse qualquer dificuldade era com o Governo Federal  com quem devia entender-se”.
     O Itamarati, posteriormente, persuadido pelo plenipotenciário boliviano, resolve aquiescer e telegrafa ao governador do Amazonas, propondo a concordar na instalação do posto aduaneiro à margem do rio Acre e que o Ministério da Fazenda estaria autorizando ordens para que as Alfândegas de Manaus e de Belém recebessem os documentos expedidos por aquele posto, a título de justificativa de mercadorias em trânsito, como pleiteavam os  interessados.
     De posse do importante trunfo, o Ministro Don Paravicini, exultante, habilita-se para ele mesmo preparar e comandar nova expedição boliviana para ocupar o Acre.


     

segunda-feira, 4 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – V
                      José Augusto de Castro e Costa

       O rio Acre tornara-se um dos afluentes mais populosos do rio Purus, estendendo-se  acima de onde hoje encontra-se a cidade de Rio Branco, contabilizando cerca de 10.000 pessoas, excluindo os silvícolas. Esta população era inteiramente brasileira,  provindo  dos estados do Ceará, Paraíba, Piauí, Alagoas, Maranhão, Sergipe, Pará e Amazonas. A exportação em goma elástica estimara-se em cerca de 500.000 quilos, cujo comércio  era levado a efeito por quase vinte vapores de grande estrutura, que faziam a navegação durante a cheia do rio, inclusive transportando novos seringueiros e mercadorias.
     As exportações cresciam vertiginosamente de forma progressiva, em decorrência das descobertas químicas de vulcanização, aplicando o emprego do enxofre na borracha.
     Um inglês denominado Thomas Hancock e um americano, Charles Goodyear, cujo nome é mundialmente familiar, registraram suas patentes e alastraram no mundo uma verdadeira febre de interesses nos objetos produzidos do estranho  látex, tais como salva-vidas, balões-de-gás, sapatos, tapetes, botes, travesseiros, capotes, forros,  etc.,etc., relacionando-se inúmeras utilidades, coroando-se com um dos mais poderosos e influentes negócios – o pneu-mático.
     Embora outros países possuíssem o látex, era o da Amazônia o que apresentava melhor qualidade e, por isso, o mais procurado, levando as capitais de Belém e Manaus ao ápice, pelo impulso da economia da goma elástica.
      Os mais importantes mercados importadores da borracha eram Antuérpia, Hamburgo, Lisboa, Liverpool, Londres e Nova Iorque, os quais adquiriam  toda a produção amazônica.
     A expansão industrial no mundo, então, fez girar variedade incontável de artigos e objetos manufaturados, comerciáveis naquelas duas capitais brasileiras, devendo-se a isso o crescimento e a formação  de uma elite que se impôs na vida do Brasil, em padrões de cultura. Ali viu-se prosperar o aspecto das duas cidades, onde destacavam-se a beleza e o asseio das ruas e largas avenidas, marginadas de enormes mangueirais.
     As casas eram construídas ao estilo francês e português, o Teatro  Amazonas, em Manaus e Teatro da Paz, em Belém, cercados por jardins muito bem tratados, causavam viva admiração pela majestade de suas edificações e sintetizavam muito bem  o ar de civilização que provinha das metrópoles europeias.
     O processo social nas duas capitais desenvolvia-se notoriamente. Em Manaus, por situar-se mais próximo dos seringais, o ritmo de progresso sentia falta de mão de obra para atender à demanda das construções, de vez que a Municipalidade determinara aos proprietários de terrenos baldios a necessária edificação dos mesmos, num prazo de seis meses. Havendo precariedade de operários, que se preparasse apenas a fachada do prédio, ficando o resto para depois, a fim de que a Lei municipal fosse cumprida.
     O dinamismo vivido em Manaus e Belém aparentava os princípios de fortuna que a borracha acreana traria, deixando marcas indeléveis em ambas as metrópoles, tanto no visual do cidade como em seus habitantes.
     A produção vertiginosa da borracha também viria despertar, sobremaneira, os sentidos do imperialismo econômico.
     No princípio, em termos de negócio, o imperialismo apenas importava a exportação brasileira, o que não atendia ao apetite dominador da avidez. Fazia-se mister robustecer a transação,  extinguindo, senão, diminuindo taxas e /ou emolumentos alfandegários  brasileiros, que mesmo vantajosos, incomodavam.
     Para o império econômico  a Bolívia tinha que entrar nesse cenário  e assumir o papel  de protagonizar a  exportação da borracha extraída do Acre.
     Nasce daí a figura de D.Juan Francisco Velarde, Ministro-Residente  da Bolívia, procurando persuadir os brasileiros, durante uma conferência na Sociedade de Geografia, a qual contava com a presença do Imperador D. Pedro II.
     Dizia o ministro boliviano, naquela conferência que na América do Sul ainda existiam regiões inexploradas, cujo estudo interessava à ciência. Que a civilização havia limitado seus benefícios ao litoral do continente, deixando seu interior em seu estado primitivo.
    D. Juan Velarde, no desenrolar da conferência realizada em 28 de junho de 1886, chegara a afirmar que o Acre ainda não havia sido encontrado. Os ouvintes brasileiros, por sua vez, pareciam desconhecer que há exatos vinte e nove anos, várias famílias cearense e maranhenses, sob o comando de João Gabriel de Carvalho e Melo, haviam-se instalado rio Acre acima. Desconheciam que vinte anos antes, o Purus, Acre e Juruá estavam completamente devassados por brasileiros.
     Segundo historiadores e vários registros  documentais, o ministro boliviano demonstrou, na citada conferência, notório desconhecimento da área acreana, quando referiu-se ao Acre cortado por dois rios navegáveis (Abunã e Órton), dizendo ainda que os mesmos eram divididos e subdivididos em seu curso superior, quando, na verdade, estes rios pertencem à bacia do Madeira.
     Tal desconhecimento já fazia-se notado antes e após o Tratado de Ayacucho, de 1867, porém, estimulada pelo imperialismo econômico que eclodia na Europa e USA, a Bolívia passou a interessar-se pela área acreana.
     A Conferência proferida por D. Juan Velarde constituiu-se, historicamente, na primeira manifestação boliviana, com vistas à ocupação do Acre, insinuando tratar-se de ambiente inexplorado, inculto e em seu estado primitivo. Todos pareciam não levar em conta que, a simples ocupação do cearense João Gabriel de Carvalho e Melo conferiria ao Brasil, independente de qualquer outro título, o direito a ocupação  efetiva e prolongada do território. É o que significa” uti possidetis”, inserido no Tratado de Madri, de 1749, objeto consentido pela Espanha, ao “emprestar o valor da justa propriedade à ocupação do solo e correr os limites pelas divisas naturais”.
     Ao ignorar o utis possidetis, os interessados sob a égide de um Tratado repleto de equívocos, passaram a  visitar  a região acreana, inclusive relacionando-se com brasileiros que achavam-se instalados em seringais, nas proximidades do Beni.
     Os olhos bolivianos começam-se a abrir  os olhos após testemunharem, in loco, o trabalho extrativista do brasileiros no rio Acre.


   

    




    

quarta-feira, 30 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇAO  -  IV
             José Augusto de Castro e Costa

     Não obstante  a grande movimentação  nas cidades de Manaus e Belém,  relacionada  à exportação da borracha, o Brasil, em si, não fazia a menor ideia de que o fato vinha dando o maior destaque de expansão nacional  naquela área amazônica.
     O que parecia preocupar as autoridades brasileiras era a situação de dificuldade geográfica da Bolívia, conforme verifica-se logo após a Independência, quando o Presidente da Província de Mato Grosso convida  os governadores bolivianos para unirem ao Império do Brasil as províncias de Santa Cruz de La Sierra, Chiquitos e Moxos.
    Esses atos foram rigorosamente desautorizados posteriormente pelo Governo Imperial. Parece nascer daí um certa preocupação em delimitar as terras brasileiras.
     A Bolívia, na verdade, sempre conviveu com problemas geofísicos, o que fundamenta o desejo dos bolivianos de desfrutarem a vista de um horizonte que não seja pontilhado de picos montanhosos. Não apenas  este aspecto, mas a acessibilidade menos dificultosa  para o fluxo e refluxo de seus interesses. Sempre a política boliviana girou em torno de fatores geofísicos, o que  representava  uma difícil e enorme distancia  para ambos os oceanos – pior ainda para as bandas do Atlântico.
     A própria literatura boliviana, através de F.Diez Medina, sugere textualmente que “ no coração da América Meridional situa-se o Atlântico; amuralhado  ao outro lado pela Grande Cordilheira que olha o Pacífico distante; cerrada por bastiões montanhosos, aberta em rios dilatados e ares estratégicos, Bolívia se levanta como um astro ignorado, jovem e remoto ao mesmo tempo”. Um outro historiador boliviano, reportando-se aos problemas sociais e geográficos a que está fadado seu país, diz que a “fatalidade histórica confinou a Bolívia ao redor de  800.000km²”.
     No cenário das discussões de tratados de limites é notório a política vacilante, tanto do Brasil como da parte da Bolívia. Esta então chegou até a dizer que não havia celebrado tratado algum positivo entre Bolívia e o Brasil (“no habiendose celebrado tratado alguno positivo entre Bolivia y El Império Del Brasil, ni podiendo considerarse  subsistente. Os anunciados tratados no existen em lós archivos  de su govierno, que Bolivia jamás les há dado el roconocimiento solemne”).
     De ressaltar que a situação interna da Bolivia não permitia  um bom termo de negociações, por motivo de estarem suas autoridades ocupadas em manter a unidade  da suposta  Federação  Peru-Bolivia, enfrentando o conflito com o Chile.
     Anos depois, vendo-se sujeito a enfrentar uma guerra absurda com o Paraguai, o Brasil procura reatar e estreitar suas relações com a Bolívia, temendo, que tal  batalha viesse alastrar-se  numa situação bélica de solidariedade do idioma espanhol, de cultura e de amor-próprio ferido.
     A negociações, então, transcorreram  em clima de compreensões recíprocas e honrarias brasileiras aceitas pelos bolivianos,  encantados e deslumbrados com tanto mimo  diplomático, convertido em  comendas e altas condecorações.
     Em menos de três meses, os bolivianos, persuadidos  por uma fórmula de harmonização do que aparentava  ser  de interesses comuns,  concordaram assinar o tratado que  recebeu o nome de Ayacucho, em 27 de março de 1867.
     Contudo, os dois países assinaram o Tratado de Ayacucho  sem o menor conhecimento da área referida no citado documento, muito menos do valor daquelas terras e sem atinar que eram os brasileiros quem estavam habitando e explorando aquela área, há dez anos. Sabiam que o documento  em pauta cuidava dos limites relacionados aos rios Javari e Madeira. Atribui-se que tais providências eram básica e teoricamente imaginárias.
     Enquanto isso a exploração do látex vai-se intensificando, consolidando sua produção e desenvolvendo sua exportação, com vistas ao breve alcance do famoso “auge da borracha”. Todo este empenho, à proporção que aproximava-se o final do XIX, é revestido do estilo mundialmente conhecido como “belle  epoque”.
     A força motriz dessas providências, de ressaltar, eram exclusivamente humana e genuinamente brasileira. Ali, até então e por alguns anos vindouros jamais ouvira-se falar em ocupação boliviana, muito menos em seringueiro boliviano.
     No  campo diplomático o jogo não  fazia a menor referência ao que ocorria no norte do Brasil. Talvez  pela  grande dimensão do país, adicionada  à  influência do fato de D.João VI haver optado por transferir a capital do Império para o sudeste, a maioria dos interesses destinados ao progresso do Brasil também  foi deslocada para aquela região, com extensão para o sul. A partir daí nasce um dito popular de que, no Brasil, há sempre destaque para a “industrialização” do sul e sudeste, em detrimento da” miserabilização” do norte e nordeste.
     A História, porém, segundo os historiadores  Arthur Cesar Ferreira Reis  e Leandro Tocantins,  registra que três anos antes da assinatura do Tratado de Ayacucho,  chega à Amazônia  o geógrafo  britânico  William Chandless, com o objetivo de examinar  a veracidade da  união aquática dos rios Purús e Madeira.
     As explorações  de Chandless  negaram a existência  de liame aquático entre os dois rios, desfazendo, então, versões inexatas, anteriormente difundidas. Em seguida o geógrafo inglês estendeu seus cálculos científicos  ao rio Juruá.
     O título de desbravador  do Juruá , à semelhança de Manuel Urbano no Purus, é concedido a João da Cunha Correia que, em 1854, isto é, 13 anos antes do Tratado de Ayacucho, percorreu terras do Juruá e, depois de alcançar o Juruá-Mirim, subiu o rio Tarauacá, passando daí ao Envira, chegando por terra ao Purus. Lembram os nossos historiadores de que só não houve um registro histórico do encontro com Manuel Urbano  porque, ao atingir o  Purus, seu desbravador, no momento, encontrava-se no alto rio.     O geógrafo William Chandless, então dez anos após,  perfaz a mesma jornada de João da Cunha Correia,  calculando haver cumprido cerca de 980 milhas. O Acre, então, sugere demonstrar-se totalmente  abrasileirado !
  
    
  

       

quarta-feira, 23 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – III
                            José Augusto de Castro e Costa

     Adicionado ao sofrimento físico, como se não bastasse, era o seringueiro acometido  por agravante da tormenta moral dos débitos,  superiores aos créditos na maioria das vezes, vindo a bordo dos Regatões ou amarrados aos lápis dos Guarda-Livros dos barracões. Quando  chegava ao seu destino, ali já se achava, incluso em um espectro de cadastro, a anotação de que aquele incauto aventureiro era um devedor e não sabia.
     Não apenas no Purus, que demanda ao Acre e ao Iaco, mas também no Juruá, as árvores seringueiras destacavam-se em sensível abundância, o que levaria a corrente imigratória proliferar-se, pontilhando as margens ribeirinhas de pequenas habitações, denominadas de tapirís, que estendiam-se por toda a área acreana.
     A vida ribeirinha, a mais rudimentar e a mais comum seria quase impossível ser vivida se não estivesse próxima a um rio, igarapé, lagoa, onde, apesar de remota, a canoa era o único meio de  comunicação de que podiam dispor seus habitantes como arrimo e parte integrante do seu viver.
     O regatão, nome usado em Portugal para os mercadores de alimentos, prosseguiu para o Acre o que já fazia desde o Maranhão ao Amazonas.
     As canoas dos regatões, cobertas de palha ou de madeira, possuíam uma cabine e duas portas, uma avante e outra para ré, cheias de prateleiras para o transporte de mercadorias, que variavam da carne-seca ao feijão, do pirarucu ao sabão, do açúcar à chita, da espingarda à agulha, do fósforo à corda de viola, do barbante ao alfinete, do cigarro ao pó de arroz.
     Fazia o regatão a sua vida dentro do barco. Ali comia, dormia e ainda fazia o seu comércio, partindo a seguir à procura de novos fregueses, visando, no princípio, a trocar suas mercadorias pela borracha e pela castanha, porque  poucas eram as vezes em que o dinheiro entrava na transação.
     Escreve Tavares Bastos: “A canoa do regatão é uma loja ambulante, indispensável  naqueles desertos imensos”.
     Os regatões  brasileiros e lusos logo vieram a ter a concorrência dos sírios e libaneses, que se diziam “compadres” de todos os prováveis compradores. Embora falando mal o português, cercavam sua clientela de um sem número de gentilezas e amabilidades.
     Ainda a cerca dos regatões, D. Antonio, Bispo do Pará, em carta ao Ministro do Império, em 1865 diz:” Os regatões, negociantes de pequeno trato, que em canoas penetram até os mais remotos sertões para negociarem com os índios. É difícil imaginar as extorsões e injustiças que a mor parte deles cometem aproveitando-se da fraqueza ou ignorância destes infelizes. Vendem-lhes os mais somenos objetos por preços fabulosos, tomam-lhe a força ou a falsa fé os gêneros, quando muitos compram-nos a vil preço e muitas vezes embriagam os chefes das casas para mais facilmente desonrar-lhes a família. Enfim não há imoralidade que não pratiquem esses cupidos aventureiros”.
     Apesar de todas as acusações feitas contra os regatões, não se pode negar, em sã consciência, a importância econômico-social de seu trabalho. Suas atividades em benefício daquelas populações isoladas em palhoças ou malocas à beira dos rios, igarapés, lagos e furos não podem ser esquecidas. Vítimas, muitas vezes, de quem se considerava prejudicado pelo puritanismo da época ou por inveja de alguns, a eles se imputavam todos os males e todos os erros de um comércio condenável.  Os seringalistas, ou patrões dos seringais, detestavam os regatões, pois eles chegavam a convencer os seringueiros a desviarem borracha do seringal, em troca de suas bugigangas.
       Na realidade,  tudo indica que eles também ajudaram no engrandecimento da Amazônia, na descoberta de tantas tribos, no escoamento da produção das povoações acreanas, sobretudo.
     Contudo, as reais vítimas não só deles, mas de seus próprios patrões, foram os ingênuos seringueiros.
     Por considerarem os casados mais dispendiosos pois necessitavam de mais passagens, para começar as despesas, os patrões seringalistas recomendavam aos agenciadores  a preferência pelos solteiros.  Entretanto muitos casados se submetiam a embarcar sozinhos para, depois de alguns anos mandar buscar as famílias. Aí, quando algum deles falecia, invariavelmente endividado, o patrão, a título de caução da dívida, apossava-se da mulher. Um detalhe: a maioria dos seringueiros era de solteiros e viúvos. Portanto, não faltava pretendente para disputar a viúva. Porém, para tal, havia de sanar todo o débito do falecido.
    Na estrutura do seringal observava-se  dois grupos, de uma certa forma, unidos pelo objetivo do ganho industrial e comercial: O do patrão e o do seringueiro.
     Aquele, situado numa exata sucessão hierárquica, era  seguido  pelos seus auxiliares diretos, formados pelo gerente, o guarda-livro e ainda os canoeiros e os mariscadores( ou pescadores). 
     O seringueiro era o homem que já chegava ao seringal com a esperança de retornar rico à sua terra natal. Isto realmente aconteceu, a começar pelo primeiro colonizador do Acre, João Gabriel  de Carvalho e Melo, que saiu do Ceará, mais precisamente da serra de Uruburetama em 1854, deixando mulher e uma recém-nascida, para somente retornar em junho de 1876 e assistir ao casamento da  filha, agora afortunado e com novos horizontes para conquistar aquela área da Amazônia. Outros, porém, viam-se perdidos ante as intempéries e os percalços da vida que levavam, a exemplos dos Chicos Bentos, seus Trindades, Toinhos e Manés Lopes.
     E assim segue a humanidade nos seringais do Acre, pela força motriz  humana  a fabricar borracha, levando, porém, no peito e na alma, o pensamento naquela que também  despertava cobiça em razão de instintos sexuais  reprimidos. E ali enraizavam-se.
     Mas o desejo de obter o mínimo de saldo pode-se dizer que era imenso, difícil,  porém  não impossível.





quinta-feira, 17 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO  -  II
                    José Augusto de Castro e Costa
     A região amazônica, então , tornara-se um paraíso  no qual refletia sensivelmente o industrialismo europeu e também o americano. Isto porque já se propagara que a região constituíra-se num bom mercado para artigos da industrialização e de fornecimento de produtos exóticos, aptos para satisfazer a demanda advinda da Revolução Industrial.  Há registro de que, no início do segundo decênio do século XIX, várias frotas mercantes dirigiram-se para os rios amazônicos, notadamente interessados em operações comerciais, baseadas na cidade de Belém do Grão Pará.
     Eram de grande variedade e importância os artigos transacionados, tanto de exportação como de importação, porém um produto de exportação destacara-se, quase que sorrateiramente, vindo a abalar os mercados  do planeta. Trata-se da borracha, a qual, em princípio cuidava de manufatura e quantidade mínima de artigo em bruto. Consta  que, até 1840, a maior  quantidade de artigo de borracha exportado foi em forma de sapato, que foi levado a efeito durante quinze anos, quando dita exportação foi substituída  por produto  em
bruto.
     A grande procura estrangeira  prende-se ao fato de que há setenta anos antes o europeu já referia-se a “uma substancia que pode ser empregada, com bons resultados, para apagar traços de lápis no papel”, que provinha da Índia. Em seguida foram desenvolvidas pesquisas com vistas ao uso de tal artigo na fabricação de diversos outros objetos úteis à vida cotidiana,tais como ligas, suspensórios, tubos cirúrgicos, sapatos.
     A esse paraíso, a essa região  que já começara a apresentar-se,  com robustez invejável , como super produtiva, acorriam um sem-número de brasileiros (nordestinos), como registro o professor Arthur Reis:”Em 1852 registrou-se a primeira localização no Purus: Manoel Nicolau de Melo, pernambucano, situou-se no lago Aiapuá, abrindo caminho aos outros. Em 1857 o imigrante cearense João Gabriel de Carvalho e Melo, com quarenta famílias do Maranhão e Ceará, estas tangidas pela inclemência da seca de 1845, estabeleceu-se perto da foz do Purus, no Itapá, de onde deslocou-se, em 1862, para o Beruri e para o Tauariá, entre o igarapé Bapixi e a ilha do Purupuru-Carneira, onde iniciou o cultivo da salsa”.
     Essas famílias, naturalmente, cresceram, multiplicaram-se e embrenharam-se floresta adentro e rio acima, depois de apaziguar e estabelecer bons relacionamentos com os índios que constantemente saiam das malocas para, nas praias do rio Purus, pescar e recolher tartarugas e tracajás que vinham desovar nas areias.
     Por manterem contatos por tempo suficiente com os índios, João Gabriel e seus companheiros fizeram dos silvícolas seus primeiros seringueiros que os auxiliavam a extrair borracha em terra sem dono.
     Em períodos de cheias, nos primeiros meses do ano, esses aventureiros abarrotavam de borracha os gaiolas que encarregavam-se de transportar o produto até Belém.
    Nascem daí as famosas casa aviadoras. O cearense humilde João Gabriel, por haver caído nas graças de um grande comerciante-aviador  estabelecido em Belém do Grão-Pará, tem à sua disposição toda uma estrutura material e econômica para levar a efeito esse empreendimento que, por certo, veio marcar o início da colonização do rio Acre – aliás, da região acreana.
        Quando o calendário assinalava o dia 3 de março de 1878, nascia a colonização do Acre, com o cearense João Gabriel de Carvalho e Melo, à frente de seus homens  vindos do Ceará e do Maranhão, erguendo barracas para indicar o primeiro seringal e estável  na área acreana.
     Nunca  se ouviu falar em boliviano, muito menos em seringueiro boliviano naquelas do Acre.
     Há vinte e um anos, portanto em 1857, dez anos antes do Tratado de Ayacuchoi, João Gabriel estivera naquele local e, por certo, conhecia muito bem os índios e a floresta de ótimas seringueiras para, ali, colocar muita fé e muita energia no mais novo empreendimento, vindo a consagrar-se o primeiro colonizador do Acre.
     A partir daí tudo soa português na região acreana, com preponderância para a linguagem tipicamente nordestina. Este ato de coragem de João Gabriel adicionado ao seu arrojo, sem dúvidas valeu ao Brasil estender suas fronteiras através da posse produtiva, o que vem  a ser o uti  possidetis.
     Quando se refere a paraíso, está-se levando em conta  o exotismo biodiversificado da natureza  e à exuberância do látex  que saltava aos olhos. Em contrapartida era terrivelmente sensível o sofrimento pelo qual passavam aqueles que se destinavam às aventuras na “interland”.
     Logo ao atingir o rio Purus, os passageiros dos gaiolas começavam  a incomodar-se com os intermitantes ataques dos mosquitos da região. Durante o dia, eram os terríveis piuns  (Simulium amazonensis), que  marcava a picada com o ponto sanguíneo. Ao anoitecer chegavam as vorazes  carapanãs (Mansonia amazonensis), da família das muriçocas.
     Se a viagem para aquelas plagas decorria entre essas e outras agruras, a vida na floresta  não deixava por menos, sobretudo quando as doenças se faziam presentes, o que constantemente ocorria, como o impaludismo, o beribéri, as polinevrites, as infecções intestinais, que causavam grande mortalidade.
     No período da cheia, diante a chuva forte  que provocava alagação geral, levando a perda total  da plantação do pequeno roçado  e destruição da precária cabana, o seringueiro pensava na ironia do destino que o expulsou do nordeste  por motivo da seca, emigrou para o Acre, perdeu tudo o que tinha e ali estava ele quase sendo expulso  em razão da cheia.
     Vê-se, contudo, que vai-se formando no âmago do seringueiro  uma forte inclinação afetuosa, um imenso apego à sua família, à sua moradia, ao seu cotidiano em que destacavam-se seus costumes e seu linguajar, de modo que, mesmo em face às adversidades sentia-se  impelido a resistir e permanecer no mundo em que vivia.
    

    

sexta-feira, 11 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO  -  I

                      José Augusto de Castro e Costa

     Ao julgar-me admirador de atos e fatos históricos, sinto-me imensamente  gratificado com o prazer de fornecer dados e opiniões, o mínimo que seja, para quem quiser tomar a si a nobilíssima tarefa de escrever a história da terra que me serviu de berço. Ambiciono apenas glórias para o Acre.
     É de suma importância manter-se acesa a chama da história acreana, pelo fato de, conforme  é reconhecido por Lews Munford, “ ela é contemporânea, e nada talvez mais contemporâneo do que aquelas partes ocultas do passado, que ainda sobrevivem sem que tomemos conhecimento de seu impacto cotidiano”.
     Por não se contentar na repetição da história dos demais, o historiador, levado por seu espírito de pesquisa, invade bibliotecas adentro e faz de tudo para chegar às origens da verdade. Com referência à Amazônia assim o fizeram  o professor Arthur Cezar Ferreira Reis, Craveiro Costa, Cláudio de Araújo Lima, Ferreira Sobrinho, Leandro Tocantins... Todos, sobretudo por serem amazônidas, com dedicação exclusiva à questão do Acre.
     Ao lê-los atentamente fica-se com a impressão de que o Acre, em relação ao Brasil, era como uma criança rejeitada pelo pai que a doou ao vizinho, inclusive de papel passado (acordo de Ayacucho – 1867). A criança já havia adquirido e enraizado a cultura do pai (Brasil), sua língua nativa de sotaques variados. seus costumes diversificados (comidas, danças, espiritualidade, anedotário, vestuário, etc.), há um bom tempo, revestida do mais puro sentimento de orgulho, acomodado em seu âmago. O vizinho, a princípio acordou, projetou, planejou ficar com a criança e até dramatizou resistência mortífera em perdê-la.  E o pai... simplesmente alheio ao processo.
     A história do Acre merece ser mais difundida, para atingir a correta interpretação  pela inteligência brasileira, equivocada, ainda, em grande parte, de compreensões sobre o original processo de incorporação do Acre ao Brasil.
     Em linhas gerais, os nordestinos, sobretudo os cearenses, mais  os amazonenses, paraenses e maranhenses apenas repetiram feitos dos bandeirantes, nos séculos XVII e XVIII, não obstante o Tratado de Tordesilhas, inicialmente com o objetivo de caçar e apresar índios, posteriormente  com interesses extrativistas minerais e vegetais. E nessa  de  exploração do ouro, há mais de cem anos antes (1722) do tal acordo de Ayacucho (1867)  já havia registro de brasileiros cercando a área acreana, ao atingir o Madeira e o Guaporé. Não havia nada de boliviano. A preocupação das autoridades portuguesas, nessa época, era interceptar a marcha  dos espanhóis, que também utilizavam jesuítas para fundar missões.
     A exploração das  florestas  ocidentais do continente sul-americano ocorria simultaneamente em busca do eldorado.
    Isso  foi-se tornando um paraíso  que atraia e seduzia inúmeros  aventureiros, portugueses,brasileiros,  espanhóis e inclusive holandeses dispostos a explorá-lo, ou até mesmo meramente conhecê-lo, a exemplo do grande médico-cientista Esperidião de Queiroz Lima, que desde tenra idade ambicionava embrenhar-se na selva, tanto para pesquisá-la como para nela viver, satisfazendo seu seduzido espírito aventuroso, o que na realidade ocorreu.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ACREDITANDO  NO  ACRE
                                   José Augusto de Castro e Costa


          Segundo o filósofo grego Platão, o filosofar é um ato de contemplação do mundo, pois ao observar-se as coisas e os fatos tomamos ciência de suas modificações e sentidos. É verdade que contentar-se com a aparência dos acontecimentos é não conhecer seus elementos intrínsecos, é acomodar-se na superfície. Diga-se mais: apenas a aparência é a apresentação do não revelado, do que não foi dito, o qual só através da convivência se exterioriza.
          O Acre é um estado bastante novo, repleto de esperança. Triunfante de uma luta sangrenta, detentor de” um imortal e sagrado troféu”, seu destino é o ápice.
        Contemplando-se o Acre, observando-se suas coisas e fatos aprendemos suas motivações e sentidos, despertados na densa floresta, de sua gente forte e viril, de seus feitos históricos e seu progresso vivificante.
        A verdade, por ser algo substantivo, é o essencial, que compõe a natureza das coisas e dos seres. Só alcança a verdade aquele que consegue ir além da aparência. Neste ponto não se trata de otimistas e pessimistas, conformistas e fatalistas. Chegar à verdade é mergulhar nas águas do mundo, distanciar-se da superfície em busca dos segredos de sua profundeza. Contemplar a realidade é um ato de descoberta e revelação. O cotidiano é o melhor exemplo, pois é rico em ocorrências e questões reveladoras das contradições, valores e aspirações humanas.
          Observar o dia-a-dia de uma cidade é como ler um livro. Somos provocados, a todo instante, por ocorrências de todo gênero ,expressivas dos interesses, condutas e paixões que dominam o convívio social. O Acre, por certo, está inserido nesse contexto. O cotidiano e a verdade de qualquer ponto do planeta, é o cotidiano e a verdade de qualquer ponto do Acre.
        O progresso está presente, também no Acre, a cobrar o seu preço. Vemos nossos antepassados, acreanos de nascimento, quando não de coração, a trazer a satisfação de sua independência, de suas edificações em alvenaria, das primeiras aberturas de estradas, do enquadramento e estabilização de seu funcionalismo, da pavimentação de suas vias públicas, do empreendedorismo estrutural, do assistencialismo social. Tudo, porém, tem seu preço, não raras vezes atrelado a mazelas. O trânsito é um bom exemplo disso: não são poucos os condutores egoístas, a por em risco a vida dos outros, e arrogantes, que usam seus veículos como se fossem armas. As ruas se transformaram em vitrines, com placas, outdors, anúncios. O comércio tomou de conta de todos os espaços de nossas vidas. A existência é um mercado. Tudo está à venda: comida, automóveis, ilusões. O ser humano, neste mundo onde reina o ter, virou mero consumidor.
        A sociedade se transformou numa máquina que devora o corpo e o ser das pessoas.
        É nessa dinâmica que vemos o Acre envolto e, por ser ele parte integrante dessa engrenagem, acredita-se  vê-lo brevemente  apresentando elevados  níveis do Índice de Desenvolvimento Humano –IDH, utilizado pela ONU para medir a qualidade de vida de sua população.
         É possível contemplar o Acre e acreditar na possibilidade de nele não  ver desemprego nas ruas, observar habitações no mínimo em bom estado, não flagrar prostituição infantil,  detectar a existência de  esgotos sanitários, ver postos de saúde sem filas, admirar a aparência física das pessoas, bem nutridas, bem vestidas e bem cuidadas, não ver mendicância aberta ou disfarçada, notar a existência de escolas limpas e em perfeito funcionamento, tranquilizar-se com  o dinamismo do transporte público ordeiro e com a  notória  segurança pública. Acredite-se nessa possibilidade bilateralmente salutar – para o nosso torrão e para nós!
        Acreditar no Acre é ver a expressão no rosto dos transeuntes, a espelhar o ânimo, a presença de um projeto de vida e de uma perspectiva de futuro.